AUTO-BIOGRAFIA DE FIALHO DE ALMEIDA

AUTO-BIOGRAFIA DE FIALHO DE ALMEIDA

«EU»

 

«Sr. Director da R..»

 

 

«Faz V. a honra de pedir algumas linhas de autobiografia a um indivíduo que precisamente se orgulha de não ter história, e de pôr em dificuldades de orgulho um intransigente acusado de jamais ter feito campo à mediocridade do seu tempo. O ardil é hábil, mas não seja eu quem no aproveite para falar cubierto aos seus leitores.


Persuado-me também que à posteridade pouco se dará que eu tenha nascido em Vila de Frades, no Largo da Misericórdia, numa casinha de taipa construída por pedreiros da minha gente, e que haja sido meu pai, mestre-escola da terra e tipo de santo austero numa alma de sonhador calado, quem protegesse e dirigisse os rudimentos da minha educação. É costume, tratando-se dum homem de pena, especificar, nesta altura da história, a sua vocação precoce para as letras, mas a verdade é que eu, até entrar no Colégio Europeu, ao Conde Barão, em 66, só me senti com vocação para sezões.


Fui bom estudante sempre, e uma criaturinha triste e sossegada – duas razões que acumuladas com a de o meu pai nunca vir da província visitar-me, e de por sua pobreza não poder mandar presentes bons ao director, me valerem cinco anos de privações e de maus tratos, e uma resistência aparentemente submissa e tímida de orgulho, que pela vida fora tem sido a minha bela independência e a minha força.


Em 72 deixei o colégio, porque a nossa situação pecuniária, em vez de melhorar, tendia a decair, e aí vou eu apodrecer numa botica, sete anos, uma botica que era a projecção agravada da existência do colégio, com uma enclausura mais rude, uma fadiga física mais forte, e piorias consideráveis de tratamento e convívio, de que ainda hoje me não posso lembrar sem ranger os dentes de despeito. A botica para mim teve a vantagem de me pôr em contacto absoluto com o povo, de me mostrar a existência dos bairros pobres, numa cidade onde o operário envelhece sem a menor ideia de conforto, e cumulativamente ensinou-me o manuseio e preparo de venenos, arte de que me tenho servido com êxito para rebentar diversas ratazanas. Durante esses sete anos de emplastos e de pílulas, ninguém pode imaginar os tormentos que eu passei.


Davam-me três horas aos domingos para oxigenar os pulmões cansados de respirar fedentinas de drogas e ervas podres; a minha alimentação era uma burundanga que sobrava do jantar da família do patrão, e que mal poderei comparar, como nutriência e aspecto, às mais asquerosas pastas que os soldados distribuem nos quartéis à pobralhada. Dormia num cacifro de seis palmos de largo, por vinte de comprido e dez de altura, numa enxerga metida numa espécie de gaveta, que pela manhã reentrava na parede, e da qual tanta vez pedi a Deus me talhasse caixão onde acabar meus grotescos males por uma vez.


A baiuca onde eu praticava era tão velha, infecta, escura e desordenada, que ainda hoje me surpreendo da triunfância vital deste arcabouço, que pôde resistir sete anos àquele inferno de ratos, pias rotas, miséria alimentícia e raçuns de unguentos pré-históricos.


Às oito horas da noite começavam a entrar os da palestra; armava-se uma conversazinha pulada sobre os casos do bairro e da política; havia o gracioso, o sensato, o espírito inventivo, o intransigente e o erudito, que soadas as onze, depois de ter envenenado três horas de azedume dos seus ordenados famélicos e dos seus azares de família embirrativos, debundavam aos pares, erguendo as golas dos fraques, e concordando em que não havia senão ladrões neste país.


O meu desforço foi por aquele tempo uma criada que servia um fidalgo, por cima da botica, e que me consolava as tristezas enviando-me mimos de cabelo, e confessando-me por uma frincha da porta, coitada, que nunca encontrara um 'amor de rapaz' mais dedicado. Pagou-me essa dedicação indo viver com um barbeiro do Largo do Mitelo, homem frascário e fácil, quase trôpego, que acumulava o mister capilar com esse outro, não menos untoso, de ajudar à missa o padre da Bemposta. Este barbeiro-sacrista era ciumento, e tendo mobilado a boca para a cerimónia nupcial, com alguns dentes postiços, foi a exigir, num acesse de zelos, que a rapariga em testemunho de amor lhos engolisse. Esteve à morte, e por precaução nunca mais a frequentei – do que lhe peço aqui desculpa, caso ainda viva, a espevitada, com os dentes a esmo na barriga.


Esta residência entre drogas estragou-me a saúde, e além de outros achaques de espírito e de corpo, incutiu-me uma tendência mórbida para as letras. Gastei sete anos a percorrer todos os lugares-comuns dos escritores nacionais, de 1830 para cá, e a matar o tédio desta leitura com romances de cadernetas, e pequenos ensaios literários de fábrica própria, para os jornais de província, onde a petulância das minhas asneiras me acarretou, por Leiria e Viseu, foros de escritorinho esperançoso. Minavam-me o tédio e uma ânsia de liberdade insaciável, e alcancei que me deixassem ir findar os preparatórios do liceu, findos os quais, ao matricular-me na Escola Politécnica, o falecimento de meu pai me obrigou a abandonar botica e estudos, para ir acudir ao bem-estar dos meus, ameaçado terrivelmente por aquela morte, que nos deixava às portas da miséria.


Por lá estive um ano inteiro, e tornando no seguinte, por aí fora vim vindo, até ultimar o curso médico. Como vivi todo esse tempo? Dos recursos do pouco que minha pobre mãe podia dar-me, de alguma colaboração avulsa por dicionários e pequenas folhas literárias, e enfim de lições que fui dando, à hora em que os meus condiscípulos folgavam, descuidosos, felizes, bem comidos, bem vestidos, ignorando o martírio do pão ganho aos patacos, e os prodígios de energia heróica consumida a vencer economias de cigarros e de ceias, e a desaparecer enfim de toda a parte onde o 'sucesso tem praça', e poderia ser notado o nosso casaco velho, o nosso cabelo crescido e as nossas botas roídas nos tacões.


Vencidos os cursos científicos, em vez de seguir, como os meus condiscípulos, nas facilidades profissionais que eles fomentam, cometi a tolice de me lançar na vida literária, de querer viver por uma pena donde continuamente espirravam revoltas, e que fatalmente havia de me agravar as dificuldades do caminho. Tendo escrito desde então cerca de mil e trezentas páginas por ano, o que representa uma actividade rara num país onde a bagagem literária é um livro de versinhos e meia dúzia de artigos laudatórios, apenas consegui na opinião de muitos dos meus contemporâneos 'arranjados', a reputação dum desequilibrado indolente, que arma à sensação por via do galicismo, e a dum prosador colérico, proibido do sucesso pelo mau sestro de não poder ser lido por senhoras.


Dos resultados materiais do meu trabalho acérrimo, baste a V. saber que nem logro auferir da pena o sustento necessário, ganhando menos que um carpinteiro ou um pedreiro, e tendo de resignar os meus gastos a condições de parcimónia de que só eu sei o mistério e perante as quais forçoso me foi abdicar de todas as aspirações e vanglórias que entram por meio na confecção da alegria, e são neste mundo o factor principal da felicidade. Basta-lhe um facto. Tenho publicado até hoje seis volumes de contos e bluettes, cujas matérias somadas perfazem alguma coisa como mil novecentas e oitenta e tantas páginas compactas. Quer V. saber quanto me deram os editores por toda esta bagagem? Seiscentos mil réis. O que representa uma paga a três tostões por página, menos da metade do salário do mais reles e ignaro tradutor de Ponson du Terrail ou Xavier de Montépin.


Aí tem V. pouco mais ou menos a história do homem de letras que alguns críticos têm apodado de vaidoso, e tópicos mais que necessários para a interpretação razonada da minha misantropia e essência literária. Está vendo já donde procedem algumas das sensibilidades especiais que melhor ou pior contém a minha prosa: o sentimento da paisagem nascido da minha origem de aldeão contemplador, as predilecções por assuntos humildes, inspiradas numa longa e quase exclusiva convivência entre as classes chamadas ínfimas; e enfim todas as minhas sedes ásperas de justiça, reacção natural da minha índole singela contra os despotismos duma sociedade que durante anos a trouxe enrodilhada nos pés continuamente. Quinze anos deste regime, escravo de quantos obstáculos a pobreza e o orgulho põem nos rails duma vida laboriosa e continuamente orientada na evitação dos fáceis triunfos, das lisonjas pulhas e das recompensas servilmente obtidas no desprezível mister de engraxador, se por um lado me têm mostrado a inutilidade material e moral de toda a espécie de protesto isolado, deixaram-me ver, por outro, na convivência de milhares de indivíduos de todas as categorias e de todas as espécies, a porção comum de velhacaria e de baixeza que quase todos eles precisaram desenvolver para instalar na vida o seu talher. A muito poucos dos que aí estão hoje elevados, e que passaram por mim nas redacções dos jornais, nos átrios das escolas e nas mesas dos cafés, invejaria um momento a história ascensional, porque a gloríola ganha sem trabalho espatifa-se em bagatela como o dinheiro do jogo, sem de si propulsionar senão defeitos.


Tornando às letras, os meus próprios amigos repararam no carácter fragmentário dos meus escritos, e os mais ferozes me acusam de intrometer fezes humanas nas tintas duma paleta onde só deveriam esmair suavemente as cores do espectro. O primeiro ponto é bem notado, eu mesmo me entristeço de até à hora presente não ter senão uma efémera bagagem de historietas de espuma e artigos 'mais ou menos verrineiros'. Pouco importa que essa obra faça o melhor de cinco ou seis mil páginas, e represente a fadiga de mais de quinze anos de nervos excitados. O público entre nos não diviniza senão fabricantes de grandes calhamaços (critério natural num país onde a leitura é toda de lombadas), e mesmo que eu fizesse, naqueles pobres bocados, maravilhas, passaria sempre por um cronista aguado das futilidades mansas do meu tempo. Resignar-me-ei calado ao veredictum, tanto mais, sendo ele, quase por completo, verdadeiro, mas explicando sempre que quem não aufere, como eu, dinheiro do Estado, e tem de ganhar o seu pão dia a dia, não pode senão produzir minuscularias literárias, obrinhas de fácil curso, pagas aos quinze tostões. Deus sabe quando, e escritas sabe Deus em que disposições de cabeça e de barriga!


A cada instante abordam-me os ingénuos – mas por que não escreve você um livro inteiro? Um grande romance, um grande quadro crítico? …


Imaginam que esses trabalhos se abordam com a inconsequência e a rapidez de vinte ou trinta páginas; mal compreendem que sejam precisos longos meses de estudo, anos de concentração, paciências beneditinas de factura; e durante todo esse tempo quem é que garante ao desprovido escritor, o passadio, e depois da obra feita, quanto dá por ela o editor, ou mesmo quem é que a edita, não havendo em Portugal senão trezentas pessoas capazes de pagar até seis tostões por exemplar.


A linguagem plebeia agora, e os termos 'sujos'. Quem percorre a maior parte dos livros portugueses escritos nos últimos quinze anos, abismado fica da falta de interesse inerente a quase todos, e da estulta preocupação que leva os autores a escreverem em 'estilo nobre', isto é, numa algaravia convencional, bosselada de retórica, eivada de incidentes, imagens cediças, frases feitas, através de cujo urdimento a atenção dos leitores se esfalfa, resultando a convicção de que uma tal literatura é apenas intrujice de dúzia e meia de espíritos palavrosos, ermos de gosto, sem ideais nem experiência do ofício, e que quando muito aprenderiam nas aulas de português a sintaxe dos escritos fradescos que lá é costume apontar como mananciais de inspiração literária genuína. Imagina-se em geral que todo o fiel patife, poeta ou prosador, capaz de arregalar sobre o papel daquelas estopadas, fica ipso facto sagrado artista e homem de letras, e ninguém perscruta a razão por que, devendo ser a frase literária a expressão fotográfica, instantânea, das ideias, escritor que tenha obscuro e supérfluo o estilo, é que certamente carece de limpidez nas figurações ou doutrinas que esse estilo é chamado a visionar. As obscuridades de vocabulário pois, os torcicolos de frase, as arborências excessivamente complexas do período, longe de creditarem o talento pictural do escritor, devem ao contrário sobreavisar-nos quanto ao pequeno peso e nenhum feitio da sua bagagem psicológica.


Desta vacuidade cerebral hipocrisíada de retórica, que há vinte anos tem sido a literatura artística do País, resultou em primeiro lugar a depravação do gosto público, e em segundo a indiferença gradual, hoje completa, desse mesmo público por todos os que fazem em Portugal a profissão de homens de letras. A decadência é tal, que o estilo em que é uso escrever-se só é bom quando não exprime coisa alguma, e constar de uma série de lugares-comuns piegas, amantéticos, que leitura finda, valem ao plumitivo a reputação de literatejar de 'luva branca'.


Ninguém compreende a necessidade que há de escrever como se pensa e como se fala, límpido, claro, brutal, simples e certo, veemente ou plácido segundo o veio de água do assunto, precipitado ou espraiado, consoante o temperamento emotivo de quem escreve, e sincero sempre, arrancado da alma, e empregando, como Shakespeare diz, para a pior ideia, a pior palavra – venho a dizer, a mais cruel, que é quase sempre a mais pictural e a mais persuasiva.


Um dos verdadeiros predicados do escritor é saber ele destrinçar, na variedade de tantos milhares de formas literárias, qual seja própria para exprimir fielmente um certo assunto. Latino Coelho, aquando folhetinista, não sei onde, teve o seu sestro de tratar em períodos largos, estilo de elogio histórico, os sucessos humorísticos ou chalros da semana, e não se imagina o desastre que isso foi! Conhecem uma narração de viagem, de Herculano, à volta do exílio, que vem, me parece, nas Lendas e Narrativas? Por qui, por lém, tenta o escritor ferir seus pontos de humorismo, mas o estilo duro do historiador contrai-lhe o ricto da boca em carantonha, e a gente cuida ver um mastodonte a detalhar couplets velhacos da Judic.


Ter o estilo próprio dos seus assuntos é achar para cada género de literatura uma prosódia própria e uma sintaxe; o estilo desarticulado e curto para as narrativas contemporâneas; o estilo colante, sóbrio, mas orquestral, para as narrativas de assunto antigo, onde o efeito reside na erudição da cor e na pompa silabar; o estilo límpido e leve para os descritivos de paisagem; gravativo e largo nos elogios dos grandes homens; cortado em siguezague, aberto ao ar, para os assuntos humorísticos; e para os de sátira silvando entre imprecações e gargalhadas.


Gosto pouco de fazer aplicações doutrinais a coisas minhas, mas não deixarei por isso de chamar o critério de V. para a intuição que sempre me tem guiado os passos neste campo. Se V. percorrer os voluminhos de romance e narração que publiquei, reconhecerá que eu sou um dos raríssimos escrevinhadores portugueses em cuja obra o assunto é que dita o estilo, ao contrário dos mais, e onde a propriedade da expressão muitas vezes impele a pena ao exagero de vocábulos que mais gravativamente exprimam as ficções tais como o meu espírito as vê na ocasião.


Tome V. da minha obra, três espécimes de prosa impressionista: a prosa de romance e descrição, a prosa de artigo crítico, e a prosa satírica …; e tendo-os comparado intimamente, dir-me-á depois se algum destes bocados se parece, e se não houve da minha parte, ao tracejá-los, uma compreensão das afinidades que prendem a qualidade especial do pensamento à tessitura escrita da expressão. Por consequência, se eu vejo que a primeira aptidão profissional dum homem de letras é fazer às ideias a toilette de estilo que melhor lhes vai, se eu por exemplo tenho, para descrever o campo, um vocabulário especial e ritmos próprios, e outro vocabulário e outro ritmo para contar por exemplo as desgraças dum mendigo, e sucessivamente assim té aos assuntos onde a ironia se transforma em chicote e a indignação chufa da boca as insolências grosseiras do desprezo, como é que os meus censores exigem que eu escreva em estilo nobre, se muitos dos meus assuntos d' Os Gatos são trazidos a público numa intenção de sátira candente, e se da própria torpeza deles brotam a deletéria tessitura e o estilo malcriado e por vezes obsceno das objurgatórias com que as trato?


Não querem entender esses asnos que a linguagem de panfleto não se faz para pessoas sexuais, e que a única fórmula jornalística capaz de, à hora presente, ferir fundo, deve ser aquela que esbofeteia a hipocrisia infame da sociedade egoísta e sifilítica que nos cerca.


Rochefort por exemplo estava servido, se para demolir o império na Lanterne empregasse a prosa do cronista nacional Alberto Braga. Argumentam-me depois coa pudicícia alvoratada das madamas, o que me obriga a dizer que o madamismo nacional tem do pudor uma postiça e tola ideação.


Na literatura, princesas, não há nem pode haver palavras sujas. O que há é assuntos sujos, assuntos pulhas, deletérios assuntos, que os escritores não inventam, e fazem parte do dia-a-dia da cidade, assuntos enfim de que a linguagem escrita é apenas o impreterível sinal gráfico. Consequentemente, o pudor feminino tem apenas, como meio de impedir que os panfletários escrevam plebeísmos, o evitar que a sociedade seja menos torpe, e os seus maridos e irmãos menos canalhas.»

 

 

FIALHO DE ALMEIDA


“Eu”, in À Esquina (Jornal de um Vagabundo), 1900

(Edição utilizada – Círculo de Leitores, 1992)

Excerto composto por Francisca Bicho



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